Tecnologia é o paradigma da segurança alimentar
Globalmente, a inserção de tecnologia e inovações disruptivas na agricultura é apontada como um dos principais fatores para garantir a segurança alimentar. Nos últimos 100 anos, os fundamentos da agricultura passaram por algumas mudanças, mas o desafio é quebrar alguns paradigmas para alavancar a velocidade e a escala de produção.
Essas duas variáreis se impõem diante dos números projetados para o crescimento da população global: espera-se que o planeta ultrapasse a marca de nove bilhões de habitantes até 2050. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) estima que nossa produção coletiva de alimentos precisará aumentar em 60% para acomodar esse crescimento.
A única resposta viável para esse desafio é o emprego massivo de Farming 4.0, tornando cada vez mais presente no campo a inteligência artificial, robótica, computação em nuvem, hortas verticais e outras ferramentas e técnicas modernas.
E a aplicação de tanta tecnologia deverá ser crucial para resolver um problema central da agricultura contemporânea: a preservação da qualidade do solo para o futuro.
Inúmeros fatores estão afetando a presença equilibrada e suficiente de micro-organismos no solo. As mudanças climáticas representam um item relevante, com regiões do planeta que passam por um processo de desertificação, devido à maior exposição do solo a altas temperaturas e excesso de radiação solar.
Todavia, outro fator decisivo tem sido o emprego de técnicas tradicionais da agricultura com a aceleração dos ciclos de safra, sem dar à natureza o devido tempo para recuperar o solo.
Especialistas como David Montgomery, Ph.D. em Geomorfologia da Universidade da Califórnia, fazem um alerta para as consequências dessa prática. Autor do livro Dirt: The Erosion of Civilizations (Poeira: a erosão das civilizações), ele explica que a degradação do solo ocorre em longo prazo, não em um único evento catastrófico, e o processo para revertê-la é caro e lento.
Assim, o Farming 4.0 ganha força como tábua de salvação. Os investimentos em hortas verticais estão se multiplicando pelo planeta em iniciativas como a empresa Plenty Unlimited, que está construindo uma unidade cuja produção será de nove milhões de toneladas de vegetais por ano. Comparada com as técnicas tradicionais, as instalações dessa companhia produzem o equivalente a um campo de futebol no espaço de um dos gols: área 350 vezes menor. E sem uso de pesticidas!
Na Índia, o Farming 4.0 está se expressando em um grande projeto de computação na nuvem, cujo compartilhamento e processamento de informações coletadas de agentes de toda a cadeia produtiva – desde produtores de sementes até as redes de venda ao consumidor final – formam um big data que retorna informações importantes para garantir produtividade e qualidade dos produtos, bem como combater desperdícios.
Todavia, há especialistas que apontam a necessidade de adaptação dos costumes alimentares a novas fontes de proteína, especialmente proteína animal. Além de defensor da digitalização do setor agrícola, Mohammed Ashour, fundador e CEO do Aspire Food Group, recomenda uma participação maior dos insetos nos nossos cardápios.
No Canadá, após inaugurar um galpão com tecnologia de ponta para a produção de grilos, ele conta que utiliza apenas 12 hectares para produzir 12 milhões desses insetos por ano, enquanto a produção anual da pecuária nessa área seria de apenas seis vacas. Além disso, graças à tecnologia embarcada, o consumo de água é uma pequena fração do que demandam os ruminantes.
Quer seja com o cardápio tradicional ou inovações em nossos pratos, mudanças para a agricultura serão impostas, nas próximas décadas, em busca da segurança alimentar. O emprego de tecnologias disruptivas e inovações é um fator de sobrevivência para parte da humanidade, bem como fator de sobrevivência para os produtores rurais.
Os primeiros que embarcarem no caminho das grandes inovações terão ganho de produtividade e barateamento de preços dos produtos em escala suficiente para provocar alterações em mercados locais e regionais. Nesse ponto, quem ficar parado, apostando no mesmo modo de sempre de plantar e colher, assumirá o risco de falir.
Convenhamos, não será a primeira vez que vamos testemunhar avanços de tecnologia provocando mudanças profundas. Você concorda?