Europa inicia processo de mudanças para Big Techs

Europa inicia processo de mudanças para Big Techs

Vai levar um tempo para compreendermos os resultados da nova Lei de Mercados Digitais da União Europeia (Digital Markets Act – DMA) e discutirmos com mais propriedade a necessidade de, eventualmente, termos uma regulação como essa no Brasil.

No início do mês, entrou em vigor um conjunto de normas que forçará as plataformas de Big Tech a abdicarem de estratégias de mercado que enclausuram seus clientes e usuários. O principal objetivo é forçar gigantes como Amazon, Google e Meta a tornarem suas plataformas mais abertas e interoperáveis.

O DMA exige que plataformas dominantes permitam a entrada de concorrentes menores – o que pode ser muito positivo para novos empreendedores, prometem os idealizadores da lei. Um dos pontos práticos de mudança é que usuários poderão baixar, em seus smartphones, aplicativos de qualquer uma das lojas existentes: Apple Store, Google Store, Amazon App Store, GetDar, AppBrain, Opera Mobile Store etc.

Outra medida prática promissora é o intercâmbio entre diferentes aplicativos de mensagens. Ou seja, a nova regulação Europeia pode obrigar o WhatsApp (Meta) a receber mensagens de aplicativos concorrentes como Signal ou Telegram.

Todavia, esse movimento de abertura de mercados levará um tempo para apresentar os primeiros efeitos. Após a entrada em vigor da lei, a União Europeia ainda precisa decidir quais empresas são grandes e “entrincheiradas” o suficiente para serem classificadas como gatekeepers, sujeitas às regras mais rígidas.

A primeira lista de companhias consideradas gatekeepers, ou que usam estratégias para enclausurar usuários, será divulgada pela governança da UE em meados de 2023. A partir desse ponto, caso necessário, determinações legais serão impostas.

Mas essa história já vem de longe. A UE já havia cobrado multas contra Google, Apple e outras big techs por meio de investigações antitruste; houve recursos e uma batalha judicial que não levou a resultados práticos.

Além disso, o grupo de países europeus já regulou as big techs e o setor de tecnologia quanto a privacidade digital e segurança de dados pessoais. Sim, bebemos dessa fonte para implementar a nossa Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), em 2018.

Olhando para o futuro, as empresas de tecnologia também terão que lidar com uma segunda lei abrangente da UE: a Lei de Serviços Digitais. A nova regulação, prometida para 2024, deve exigir avaliações de risco de alguns algoritmos e divulgações sobre a tomada de decisões automatizadas.

Além disso, a UE também está considerando aprovar regras específicas para inteligência artificial, que podem proibir alguns casos de uso da tecnologia.

Regular o setor de tecnologia não é uma exclusividade europeia. Nos Estados Unidos, legisladores da Califórnia aprovaram uma lei para exigir configurações de privacidade padrão estritas para crianças e controles sobre como as empresas usam os dados que coletam sobre crianças.

No Brasil, a aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente para questões no campo de tecnologia tem sido o caminho mais frequente para a proteção dos pequenos contra possíveis danos.

Há muita perguntas relacionadas às novas dinâmicas do universo digital, e muitas tendências que questionam essas regulações. Em termos de lei, como podemos avaliar o que é necessário e o que seria exagero? Regulação pode atrasar o desenvolvimento da indústria, ou é uma proteção necessária? As respostas a essas perguntas estão além da tecnologia e envolvem questões éticas sobre o futuro tecnológico que queremos.