Satélites são novos aliados da agricultora sustentável. Por que não pensamos nisso antes?
Uma startup norte-americana está transformando satélites em aliados da agricultura sustentável, tornando mensurável a captura de gás carbônico (CO2) por lavouras de várias culturas. Na prática, explicam os desenvolvedores da Perennial, os produtores agrícolas têm uma porta para ingressar no mercado de créditos de carbono.
Ou seja, plantações de alimentos poderão receber recursos financeiros de companhias e corporações que buscam meios para compensar suas emissões de gases do efeito estufa. Uma forma de financiamento barata e positiva para o meio ambiente e para a luta contra as mudanças climáticas.
Ocorre que, globalmente, o metro superior do solo retém mais de três vezes a quantidade de carbono atualmente disperso na atmosfera e, com tratamento adequado da terra, poderá sugar ainda mais: por meio de práticas agrícolas sustentáveis, é possível sequestrar mais carbono nos campos.
A iniciativa tem um potencial extraordinário de ganhos para a coletividade. Mas por que não foi viabilizada antes? Bem, a história contada pela equipe desse projeto remete a alguns passos e comportamentos de profissionais e companhias que têm a busca pela inovação disruptiva nas suas rotinas.
No caso da Perennial, entre os tópicos listados pela revista McKinsey Quarterly sobre disrupção, o mais relevante foi a rotina de exame metódico de três aspectos: um problema a resolver, a tecnologia disponível para solucioná-lo e a possível formação de um modelo de negócio que gere lucro.
Qual era o problema? O processo de verificar se um campo absorveu carbono adicional não é fácil: amostras físicas precisam ser coletadas regularmente e enviadas a um laboratório para processamento. Uma operação de logística e preços desafiadores, a ponto de excluir agricultura do mercado de créditos de carbono.
A palavra desafio é um gatilho poderoso para ideias disruptivas. E quando o desafio encontra mentes jovens em ambiente universitário, temos os ingredientes para muita inovação.
Os atuais CEO e diretor de inovação da Perennial, Jack Roswell e David Schurman, respectivamente, se conheceram quando estudavam na Brown University. Juntos com outro estudante de engenharia, o ucraniano Oleksiy Zhuk, eles passaram a pensar em meios para solucionar a equação.
E isso levou ao desenvolvimento de uma nova tecnologia que utiliza imagens de satélite multiespectrais, capazes de medir a luz refletida da Terra, com uma ampla faixa do espectro eletromagnético, capturando informações invisíveis ao olho humano.
Imagens de satélite são alimentadas em um algoritmo de machine learning, juntamente com dados ambientais sobre o campo em questão (elevação e clima) para produzir uma aferição do teor de carbono do solo. Com essas referências, ao analisar o espectro da luz refletida pelo solo, é possível ter a medida precisa do carbono presente.
Mas, para avançar com a ideia, foi necessário fazer uma aposta e investir no seu desenvolvimento. Outro passo típico para gerar inovação.
Para treinar o algoritmo com precisão, a equipe coletou milhares de amostras de solo, cavando buracos em campos em todos os Estados Unidos para calibrar seus modelos para diferentes condições climáticas e tipos de cultivo. Assim, a equipe permitiu que o algoritmo quantificasse remotamente o carbono no solo. A empresa vê isso como o passo disruptivo para desbloquear o mercado de carbono do solo.
E as mentes disruptivas desse projeto continuam a trabalhar. No momento, a empresa está promovendo o treinamento de seus algoritmos em outros países e continentes para ajustar o projeto para novos tipos de solo.
Novamente, tecnologias disruptivas são colocadas à disposição da luta contra as mudanças climáticas. E a inovação está fechando o elo que faltava entre a agricultura e o mercado de créditos de carbono, o que poderá alavancar financeiramente formas de conservação do solo e de cultivo cada vez mais sustentáveis.
Você já havia pensado nessa aliança entre produtores rurais e satélites como chave para uma nova forma de financiar e conduzir as lavouras e pastagens?